terça-feira , 21 novembro 2017
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Buscando a si mesmo

Trocas de experiências acontecem onde e quando menos esperamos.

Certa vez, sentado a espera do meu voo no aeroporto, sentou-se uma senhora ao meu lado. Aparentava ser de meia idade, muito bonita, bem vestida e bastante simpática. Despretensiosa, me cumprimentou e perguntou amenidades, buscando uma conversa. Geralmente estamos atarefados ou fechados demais para estas conversas em trânsito, mas percebi que ela queria falar.

Como era início do ano, o assunto férias apareceu e ela comentou que tinha quatro filhos e que estava voltando de João Pessoa, onde havia passado uma semana para descansar. Imaginando que estava com os filhos, perguntei: – “Divertiram-se?” “Não, foi horrível” – ela respondeu.

Fiquei intrigado e não pude deixar de perguntar o porque – “Estava sozinha, sem ninguém para curtir junto.” Respondi apenas: “Ah”.  Não avançaria mais, mas ela continuou. Às vezes contamos coisas a estranhos  o que não contaríamos nem a mais íntima das pessoas.

Ela contou que o marido a havia deixado há dois meses. “Dei a ele os melhores anos de minha vida!” – disse ela – fiquei imaginando como isso seria possível. “Dei-lhe filhos lindos! Dei-lhe uma casa magnífica e sempre a mantinha limpa”. Disse que nunca tinha deixado os filhos se atrasarem para o colégio, que era uma cozinheira excelente, que frequentava academia e procurava fazer esportes, para se manter bonita e jovem para ele – e foi indo – “sempre procurei fazer coisas novas e me manter aberta em relação ao sexo para ele.”

Ela não parava mais. O “dele” ou “para ele” inundavam suas frases. Comecei a sentir pena dela. Ela não estava mais na conversa! Todas as coisas que tinha se agarrado e considerado essenciais para o seu relacionamento eram coisas pelas quais ele poderia ter pago. Ela tinha perdido o seu ego! Não tinha dado ao marido o encanto que provavelmente teria provocado o casamento deles: ela própria.

Todos nós nos apaixonamos por alguém. Quando este alguém vai embora, a paixão vai junto. Ela lhe dava boa comida – ele poderia ter ido a um restaurante! Ela lavava e passava suas roupas – ele poderia ter ido à lavanderia. Ela cuidava para que os filhos não se atrasassem para escola – uma babá cuidaria disto. Isso assusta né?

Ela tinha se esquecido do essencial: da magia, do mistério, do que não é descoberto ou do que se descobre com intimidade. Tirou dele a necessidade de conquistar e principalmente, abriu mão de ser conquistada.

Não resisti e perguntei: – “O que fazia por si mesma?”

“Como assim? O que quer dizer?” – ela respondeu – “Não havia tempo para fazer nada por mim!” Fiquei curioso para saber o que ela gostaria de ter feito.

“Ah sempre quis gritar de alegria ou tristeza, explodir de vez em quando, sair com amigas, conhecer coisas novas…”

Se ela tivesse gritado, explodido por alguns segundos e tivesse descoberto outras janelas pelas quais se pode ver o mundo, talvez…

Ela não sabia que ela era essencial ao relacionamento. Fazer as coisas 100% voltadas para o marido é o que sua família havia lhe ensinado como essencial para o casamento. Ela representava um papel e perdeu-se dentro dele.

A conversa continuou e sabemos o final da história: marido conhece moça interessante no escritório, que não se preocupa com o pó e não liga para o colarinho da camisa ou do minúsculo pingo de creme dental na gravata.

Ela nunca se pergunto qual era o seu valor naquela relação. Quais as suas necessidades? Quais as coisas essenciais dentro dela?

Sou apaixonado pela singularidade das pessoas. Uma coisa que me assusta muito nelas é perceber como abrem mão de serem elas mesmas tão facilmente. Imaginam que o outro aceitaria melhor um personagem diferente. Se ao menos as pessoas perguntassem às outras se o personagem inventado é atraente para elas. – não que isto seja uma alternativa válida – mas além de ser mais honesto com a pessoa e consigo mesmo, pode reduzir as possibilidades de perdas futuras e principalmente, não desperdiçar o tempo, que não volta atrás.

Nos relacionamentos as pessoas fazem o inverso, retiram-se simplesmente. Relacionamento é plural. Só existe entre duas ou mais pessoas. Por que insistimos em sair dele, fazendo com que apenas uma pessoa seja protagonista? Por que damos os nossos lugares a personagens? Dizem que os opostos se atraem. A maioria das pessoas acredita nisto, mas esforçam-se para serem iguais. Não dá para entender!

Duas pessoas se apaixonam, mas de repente somente uma fica no relacionamento. A outra não tem mais como crescer como ser humano. A lei da reciprocidade furou! Não tem mais com quem compartilhar seus sonhos e fantasias. Perde o instinto predador e se acomoda a não ter que lutar, conquistar suas próprias escolhas. Para de crescer! Num dia qualquer, ao se olhar no espelho as rugas nos dizem que o tempo passou e não avançamos. Pior é quando olhamos para o lado e vemos a pessoa pela qual fomos apaixonados da mesma forma. Não importa se foi você ou a outra pessoa que em algum momento perdeu o ego. No final, todos perdem.

Se você se acha um bom amante, mas não sabe quais são os seus valores ou o que é realmente essencial dentro de si, pense nisto! Se você é realmente um bom amante vai querer dar o melhor de você para o outro. Se você não sabe qual o seu melhor ou acha que não o possui, lamento, mas comece logo a procura-lo! Não perca tempo com personagens, sempre haverá um capítulo final para eles. Claro que nem todos vão gostar do seu melhor, mas tenha certeza que os que gostarem estarão contigo para sempre.

É simples nos perdermos em nossos personagens. Não há como nos perdermos de nós mesmos. Podemos em alguns momentos nos sentirmos sozinhos ou frágeis, mas logo nos encontramos de novo por um motivo óbvio: sempre estaremos próximos.

Não sou religioso, mas bastante curioso e às vezes fico buscando coisas interessantes que possam servir como inspiração para escrever ou simplesmente aprender. Descobri que existem inúmeros pontos em comum entre os livros sagrados de várias religiões. São muitos mesmo, mas os ligados a singularidade e ao “ser” chamam mais a minha atenção. Na Bíblia Jesus disse: “ Se quiser encontrar a vida, terá de procurar dentro de si”. Buda disse o mesmo, os livros sagrados hebraicos dizem o mesmo, até o Alcorão fala a respeito! Legal né?

A maior briga de todos os tempos é a nossa com a gente mesmo. Não existe um adversário mais fraco ou mais poderoso do que o “eu”. Se quiser encontrar respostas sobre você, busque-as diretamente na fonte.

Sobre Ricardo Robles

Apaixonado por GENTE, diversidade, filosofia, natureza, esporte, empreendedorismo e o simples da vida. Entusiasta das relações humanas e dos resultados obtidos por meio delas. Cofundador da Work4All (www.work4all.com.br). Carreira consolidada na área de Recursos Humanos ao longo dos últimos 20 anos. Especializações em Gestão de Finanças e Controladoria–USP, Gestão de Negócios–FGV, Planejamento Estratégico e Balanced Scorecard–FIA. Executive Coach formado pela ICF International Coach Federation.

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