terça-feira , 21 novembro 2017
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Dinheiro e felicidade no trabalho: verdades, mentiras e possibilidades!

Certamente você já deve ter lido algo sobre felicidade no trabalho, em especial, sobre o fator dinheiro nessa questão. Sendo assim, pretendo, nesse breve artigo apenas juntar algumas ideias e conclui-las. Pode ser que nem todos concordem ou tenham chegado às mesmas conclusões, no entanto, considerando a relevância do assunto, a discussão é sempre válida. Vamos lá então:

Dinheiro e trabalho: vivemos num sistema capitalista certo? Então, nem a famosa “injeção na testa” é gratuita. Mesmo quando o serviço é público, você e eu tivemos que pagá-lo de forma dura e compulsória mediante o recolhimento de impostos aos cofres públicos, nem sempre justos, nem sempre bem aplicados, nem sempre suficientes para tudo que precisamos. Se eu tomar uma vacina num Posto de Saúde, é porque o meu e o seu dinheiro foram transformados em prédio, em estrutura, em materiais, em salários aos servidores públicos e em vacina propriamente dita. Ou, se eu comprar um chocolate, é porque tenho dinheiro no bolso para fazer isso e o farei com muito prazer.

Então, se recebermos pouco dinheiro pelos nossos trabalhos recolheremos menos impostos, tomaremos menos vacinas e compraremos menos chocolates, e isso não é bom. Não somente isso, teremos um nível de vida limitado, com moradias simples e sem estrutura, provavelmente, não teremos veículos próprios e teremos menos roupas e sapatos que gostaríamos. Nossa alimentação será suficiente para nos manter em pé apenas. Portanto, a maior parte de nós quer ganhar o máximo de dinheiro possível para ter uma vida melhor. Algo bastante óbvio e compreensível.

Outro aspecto é a justiça no processo: quem produz mais deve ganhar mais do que aquele que produz menos. Quem tem melhor preparo técnico e oferta mais qualidade no que faz do que outros, tem que ganhar mais. Quem realiza atividades profissionais que outros não conseguem, deve ser bem remunerado. Quem faz o que foi pedido, deve receber justamente por isso. Portanto, se determinado profissional se qualifica e o outro não; se resolve um problema sem deixar pendências, diferente de outros que não fazem assim; se contribui com o crescimento da organização, então, esse profissional tem sim que ser muito bem remunerado, o máximo possível, e pronto!

A história do “quero ganhar o máximo de dinheiro possível” é verdadeira, impulsionada pelo próprio sistema. Mas, para que isso ocorra com justiça, cabe a quem paga o trabalhador criar métodos eficazes que premiem os que mais contribuem com os resultados. É preciso existir um processo lógico, justo, simples e claro, que represente a verdadeira meritocracia.

Dinheiro, num sistema capitalista onde se paga até “injeção na testa”, deve ser levado a sério. Como se pode esperar que um profissional se sinta plenamente realizado se o seu ótimo trabalho é pago somente com “tapinhas nas costas” e “parabéns”? Que tal: “tapinhas nas costas”, “parabéns” e um cheque de R$5mil? Afinal, como a pessoa vai realizar seus sonhos, viajar, fazer cursos de alto nível, se não for bem remunerada pelo seu excelente e diferenciado trabalho? Não seria mais do que justo dividir parte do lucro da operação com esse indispensável profissional? Portanto, o bom profissional precisa ser adequadamente remunerado, ele quer e precisa disso, simplesmente, porque é assim que o processo funciona.

Além do que, um país rico possui um povo rico. Pobreza gera pobreza e o contrário também é verdadeiro. Má distribuição de renda, na qual o Brasil é campeão, também prejudica e, uma remuneração justa, diminui consideravelmente seu impacto.

Não podemos esquecer também das freiras, dos monges, dos missionários e assemelhados. Esses são movidos pela paixão no que fazem. Nesse caso, o sentido altruísta supera, e muito, a questão monetária, e as discussões devem ocorrer em outras bases. Já os voluntários, em tese, possuem renda de outras atividades, e o trabalho social extra faz com que se sintam úteis ao mundo.  Não há lucro aqui a ser dividido, ao não ser o bem gerado a todos por conta da solidariedade desses homens e mulheres tão especiais. Contudo, são sobre empregos e trabalhos tradicionais que estamos tratando aqui.

Felicidade no trabalho: O dinheiro faz parte do processo, isso é fato. De que adianta um ótimo ambiente de trabalho, onde a comunicação é aberta, onde pode-se falar sobre quase tudo (menos de salários é claro); onde o trabalho é gratificante; onde a pessoa faz aquilo que realmente gosta; se no final do mês o salário é pífio, insignificante, desmotivador em comparação com a competência técnica da pessoa ou de suas realizações? Sem dúvidas, isso não combina. Dinheiro e felicidade no trabalho precisam caminhar juntos.

A felicidade no trabalho ocorre quando alguns pontos negativos do trabalho que gostamos de fazer, são superados, tais como: seguir regras, cumprir horários, suportar colegas nem sempre agradáveis, clientes nem sempre parceiros etc. Desculpem-me generalizar, mas, a chance de que todos os empregos, trabalhos, serviços, projetos, tenham uma ou mais situações que incomodem o trabalhador é muito grande. Portanto, mesmo o “trabalho dos sonhos” deve conter algo que incomode e que obrigue seu ocupante a superar-se diariamente para cumprir suas obrigações. O trabalho do sonho onde a pessoa trabalhe quando, como, com quem quiser, da forma e somente para quem quiser, não existe, ou é muito raro. Alguns colocam seu trabalho nesse nível por conta de automotivação, ou para mostrar para outros uma felicidade plástica, ou então, está se esquecendo de alguns detalhes do seu trabalho que demandam de certo grau de superação. Pode ser também que esteja exagerando em sua paixão pela profissão. Ou então, a pessoa vive o que a maior parte dos apaixonados pelo seu trabalho vive, ou seja, o prazer, o sentido de realização e a motivação gerados com o trabalho são infinitamente maiores que os eventuais problemas enfrentados nesse mesmo trabalho. Isso sim é algo valioso e verdadeiro.

O sentimento final, de dever cumprido, de ter feito um trabalho que contém um conjunto de ações positivas e recompensadoras é o sentimento que sobra quando se está engajado num trabalho que traz felicidade. A felicidade apresentada nos filmes, nas novelas, e nas histórias contadas por aí, ignoram questões cruciais que suportam a verdadeira felicidade.

Uma história verdadeira de um casal deveria terminar mais ou menos assim: “E viveram juntos superando suas diferenças, perdoando um ao outro, suportando os defeitos de cada um, brigando de vez em quando, mas, se reconciliando constantemente, respeitando-se mutuamente, aprendendo um com o outro a cada dia! E assim, viveram felizes para sempre!”.

No mundo do trabalho, essa história verdadeira de felicidade deveria ser mais ou menos assim: “Ele trabalhou firme e forte mesmo acordando muito cedo quando queria dormir até mais tarde, atendendo clientes de mau humor de vez em quando, assimilando alguns prejuízos por atos falhos seus ou de outros, dando sorrisos forçados para manter uma boa relação com colegas que talvez nem quisesse trabalhar, cumprindo metas nem sempre justas, realizando trabalhos nem sempre agradáveis de serem feitos, entre outras situações que exigiram alto grau de comprometimento com seu trabalho. E sempre teve a certeza de que seu trabalho era gratificante, de que o conjunto de atividades lhe agradava, que a capacitação técnica lhe diferenciava e o fazia um profissional competente, que o sentimento bom de um trabalho bem feito sempre foi algo incomparável e inexplicável, que a motivação para trabalhar vinha de dentro de forma natural e espontânea, que o muito obrigado sincero do cliente gerava energia para um mês ou mais de trabalho bem feito, que o salário recebido foi precedido de um trabalho sério e comprometido, que trabalhar era gostoso e viciante porque era bom! E, assim, ele fez o seu trabalho feliz para sempre!”.

Fechando o raciocínio: se você tem o poder de remunerar o trabalhador, saiba que ele quer e precisa de dinheiro, portanto, não economize com o bom e comprometido trabalhador somente porque ele ama o que faz. Não brinque com seus sentimentos e nem o manipule. Se ele for um profissional de alto nível, certamente perceberá quando isso estiver acontecendo. As consequências são muitas. No mínimo, ocorrerá um descontentamento desse profissional seguido de possível desligamento, se acaso ele encontrar outro lugar onde possa demonstrar sua paixão pelo trabalho e competência no que faz, e ser mais valorizado financeiramente.

Se você é um trabalhador, seja cada vez melhor no que faz e concretize boas parcerias. Saiba que nem tudo são flores, mas, é possível se construir um belo jardim na vida profissional, que possa ser contemplado, visível aos atuais e potenciais contratantes e clientes, cheio de frutos dos bons trabalhos que realizou ao longo do tempo.

Tenhamos, portanto, a ciência de que felicidade no trabalho tem haver com o sentido do trabalho para a pessoa que o executa e com o ambiente propiciado pela organização, que envolve questões como: segurança, qualidade de vida, relacionamentos saudáveis, liberdade para manifestar-se, estrutura adequada, orgulho pela organização, entre outros. Mas, também, e com igual importância, uma remuneração justa e motivadora. Tão digna quanto à alta qualidade do trabalho e dos resultados ofertados pelo trabalhador apaixonado pelo que faz.

Um feliz e bem remunerado trabalho a todos!

 

Adolfo Plínio Pereira é professor universitário e palestrante, Mestre em Desenvolvimento Sustentável e Qualidade de Vida, Especialista em Gestão de Pessoas e Liderança. Autor do livro: Liderança Humana e de Resultados.

Sobre Adolfo Plínio Pereira

Professor Adolfo Plínio Pereira é autor do livro: Liderança Humana e de Resultados. Mestre em Desenvolvimento Sustentável e Qualidade de Vida pelo UNIFAE, especialista em Gestão Avançada de Pessoas pela PUC. É professor universitário, facilitador de treinamentos, palestrante e consultor empresarial (adolfoplinio@terra.com.br)

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